O homem-peixe que encantou tanta gente

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Lá pras bandas do norte, morou em casa de pau a pique, arou o solo, plantou, colheu, porém, adorava mesmo era pescar. Todos os dias preferia ir com o pai subir o rio, ao invés de ficar com a mãe ajudando a cuidar dos irmãos menores. Era conhecido como Bêni, pela ascendência indígena. Seu nome significa "rio", e isso tinha muito a ver com o que ele mais amava nessa vida.

Cresceu como qualquer menino daquela região. Sem estudos, sem saúde, sem dinheiro, mas com muito amor pela profissão: barqueiro. A única época do ano em que conseguia ganhar dinheiro de verdade era no mês de julho, quando a cidade mais próxima investia no turismo e montava a estrutura de uma praia na beira do rio.

Transportava pessoas de um lado para outro, dia após dia, inclusive sábados, domingos e feriados, de preferência de madrugada, quando os outros barqueiros iam dormir e ele ficava de plantão caso aparecesse algum turista naquele horário.

Bêni se casou, teve filhos e se separou. Anos depois arrumou outra esposa e quando os dois estavam juntos, todo mundo podia jurar que o amor ali era pra sempre. Carinhoso, enchia a esposa de beijos, abraços e apelidos carinhosos "vem cá, minha preta", como gostava de chamá-la. O tempo só mostrou que os dois escreviam uma bela história de companheirismo e respeito. Tiveram duas belas filhas.

Triste foi quando construíram uma usina na região. O rio, ah o rio... O rio virou um grande lago e apagou seus passos deixados dia após dia no caminho que fazia até a beira onde aportava seu barco. Sua casa, a casa de deus filhos, a casa de seus parentes e amigos foram apagadas do mapa. Naquele lugar só restou água e saudade. Foi aí que Bêni desassossegou. Não existia mais rio, não existia mais pesca, não existia mais praia, nem turistas. E Bêni foi deixando de existir também.

Não tinha mais o que fazer. Fôra indenizado pela perda de sua antiga casa e agora morava numa bem maior, mais bonita, mais espaçosa, porém, sem vida. Bêni e sua esposa apaixonada foram vivendo sem vida durante vários outros anos até que um dia Bêni adoeceu e não resistiu, foi morar com os peixes.

Agora o Homem-peixe que deixou tanta saudade, está no lugar que mais amava nesse mundo: no rio. Ficou a saudade de suas piadas, do brilho de seu sorriso, do aperto apertado de mãos. Ah, era um excelente humorista que adorava fazer pegadinhas e brincar com as pessoas. Isso ninguém podia negar.

Bêni deixou saudades, amores, filhos, netos, parentes. Mas de sua vida fica a lição: cuidem de suas origens e não deixem homem nenhum apagar suas histórias. Afinal, por mais que destruam sua terra, sua história existe e merece ser contada e preservada.


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Esse texto é uma homenagem ao tio Dionô Araújo, que virou peixe no dia 17 de maio de 2011 e deixou muitas saudades no peito de quem o amava. 

Infelizmente não tenho muitos dados pra deixar a história mais repleta de detalhes. Tudo que escrevi foi "inspirado" no que eu sabia de sua vida.

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