Enlouqueceram a mulher do Seu Zé

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A mulher do Seu Zé era linda. Morena, dona de um corpão escultural, dentes brancos pagos em 10x sem juros, mãos de princesa e unhas de porcelana. Era magra, malhada, e se vestia com as melhores imitações que encontrava na feira dos importados. Seu fornecedor era de confiança e todas as roupas, bolsas, calçados e bijoias eram de excelente procedência. Mas tanto fake luxo acabaram por enlouquecê-la, como todos de Jairlândia estavam comentando pelos cantos.

Cidade pequena é uma coisa de louco. Aconteceu aqui do lado, horas depois a cidade inteira está por dentro do ocorrido. E o assunto da semana era nada menos do que a mulher do Seu Zé, o homem mais metido a rico daquelas bandas.

Metido a rico é aquele homem que não tem quase nada, mas finge que tem de tudo e do melhor. Seu Zé era desses caras que recebem bem em um mês, compram carrão, mobiliam a casa e viajam pra praia de avião. Mas basta os negócios irem mal, pra vender o carrão, os móveis e chegar ao ponto de colocar sua própria esposa para se prostituir com os ricos da capital.

Jairlândia, ao contrário do que o nome pode sugerir, não foi uma homenagem a um tal de Jair, mas uma referência ao rio que corta a cidade e abastece a usina hidrelétrica que garante energia pra capital do Estado, há menos de 50 quilômetros dali.

E Seu Zé, juntamente com sua esposa maravilhosa, tinha orgulho de morar ali, pelo menos era mais fácil enganar os jairlandenses do que enganar as pessoas da capital.

E aquela semana de setembro, mês em que a seca deixava as plantas todas com aparência mortificada, era o mês de falar mal da mulher do Seu Zé. Começaram a dizer, não sabe quem foi o inventor da mentira, que a morena estava enlouquecendo porque era feia, pobre e prostituta. Ela não era nada disso, nem pobre, porque quando as coisas apertavam em casa, era ela quem abria as pernas e trazia muito dinheiro pra casa. Seu corpo torneado e o bronzeado artificial pago em 15 parcelas sem juros, eram prova de que valia a pena cada investimento daqueles.

E louca? Ela não ia aceitar esse apelido ou o que quer que dissessem dela. Descobriu o bafáfá quando foi à padaria comprar muffins e folheados para o chá das cinco a bordo do seu crossfox preto com adesivos de florzinha e muitas borboletas. Quando entrou no recinto, todos olharam e ela se emudeceu. Respirou, pensou e disse bem alto "POR QUE É QUE TÃO ME OLHANDO DESSE JEITO, HEIN? TÔ DEVENDO DINHEIRO PRA ALGUM DE VOCÊS?"

Um ou outro responderam que sim, que Seu Zé estava devendo duas caixas de cerveja, uma de vodca e alguns quilos de carne, mas ela garantiu que pagaria na semana seguinte. Foi aí que alguém disse "é, enlouqueceu mesma, coitada. Essa aí deve metade da cidade".

A mulher do Seu Zé ficou emputecida e articulou naquele mesmo instante uma defesa nada discreta. Desabotoou a blusa de seda florida, botão por botão, retirou a blusa e jogou em cima do balcão. Depois abriu o zíper da saia, tirou o sutiã e a calcinha. Ficou com seu salto 15 vermelho da Carmen Steffans e saiu nua pela cidade - nem se lembrou de pagar a conta do que acabara de pedir no balcão. Ela nua, o salto 15, os muffins e o folheados. E uma cidade inteira boquiaberta para aquele desaforo.

"Ela enlouqueceu mesmo, coitada!"

"Liga pro SAMU, gente!"

"Vai sair presa com camisa de força!"

"Chama o Padre, minha gente! Ela tá endemoniada!"

"Sai prá lá, rapariga!"

Todos em polvorosa gritavam que a mulher do Seu Zé estava louca, mas no fundo, no fundo, ela só queria que todos olhassem para a nova bunda que acabara de comprar. Foram 15 mil bem investidos, feitos com o melhor doutor lá da capital.

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