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Anna tinha alguns dias de vida. Fora informada há pouco tempo, por seus médicos de confiança, que seu câncer se espalhara por todo o corpo e que não havia mais tratamento viável. "Vá viver seus últimos dias de vida do jeito que mais lhe agrada", disseram. E ela foi viver o que podia.

Teve algumas horas para pegar sua mala e viajar até Ilha Grande, um lugar paradisíaco que vira em capas de revistas compradas de última hora numa banca em frente ao hospital. Dinheiro? Seu marido pagou tudo, afinal uma pseudoculpa sem lógica o carregava de emoções pesadas e doloridas. Ele não viu sua esposa nos últimos dez anos de suas vidas. Era só trabalho e amantes. Pagar por conforto era o mínimo que podia fazer.

Anna pareceu ter gostado do hotel três estrelas onde se instalou. Por ordens próprias, quis ficar completamente sozinha e reservou uma área do hotel chamada Bangalô dos Apaixonados só para ela. Ninguém podia entrar, em hipótese alguma. Na verdade, só Lúcia Maria era permitida naquela área. Levava água, comida (sempre pratos leves, muita salada e sucos) e trocava os lençóis todos os dias.

Familiares e amigos não se atreveram a chegar perto. Alguns desavisados ligaram para o marido de Anna, a fim de saber notícias, mas todos buscavam conforto para suas almas só pelo simples fato de ser outra pessoa a estar doente, não eles mesmos. Não é esse o grande trunfo do ser humano? Rimos das desgraças alheias só por saber, muitas vezes inconscientemente, que aquele mal não nos afeta. E enquanto Anna vivia seus útlimos dias naquele hotel, seu marido passava seu tempo tentando explicar para todos que sua mulher estava fazendo aquilo que desejava.

O dia de Anna partir finalmente chegara. Ela não aguentava mais contar os segundos para seu fim. Sozinha, esperava logo o desfecho de tanto sofrimento naquele último ano de sua vida. Fora 29 anos bem vividos, pensava ela com o desejo de compensar a brevidade de sua vida.

O marido não veio, a mãe também não. Ninguém quis chegar perto da moribunda que teve câncer e ninguém soube explicar o porquê. Na família nenhum histórico da doença e nem algum tipo de vício que pudesse caracterizar os sintomas. Era o acaso, pensava. O acaso que a pegou de jeito, deu um beijo sugador de almas e a levou para um lugar que ela mesma não acreditava ser possível ir.


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Anna respirou, sentiu uma dor tão profunda que anestesiou todo o seu corpo. Um alívio... finalmente não sentia mais dor.
Mas também não tinha mais vida.

Aquilo era fim, a escuridão.

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Este post também foi publicado na Sessão Descarrego.

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